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segunda-feira, 26 de abril de 2010

5 Providências

Helane Carine Aragão

Clarinha acordou com a cabeça pesada. Estranhou o cheiro que sentiu, mas demorou um pouco até se dar conta que não sabia onde estava. Tentou levantar o corpo moído pelo cansaço e refez todos os passos desde que saiu de casa: roupas, rodoviária, o ônibus, a fuga, as paradas na estrada, o homem bonito parado. Ela arregalou os olhos e uma aflição pela falta de memórias a partir da última lembrança a socou o estômago que roncou alto e lhe provocou náuseas. “Onde eu estou?”

Correu os olhos pelo quarto desarrumado e pela cama, onde agora se encontrava sentada. Passou a mão pelo lençol amarrotado e de novo aquele cheiro tomou de assalto o olfato. A última coisa que lembrava foi que sonhou com o homem mais lindo que havia visto. Depois disso, escuridão. Tudo ficou escuro e ela não conseguia refazer os passos a partir daí. Levantou e deu alguns passos até a porta do quarto. Viu as suas coisas em cima de um sofá, usado, mas em boas condições de uso. Agarrou-as como se segurasse a última alternativa de continuar viva. “Como vim parar aqui? De quem é esta casa?”

Sentiu-se tonta, mais uma vez, e sentou no sofá. O tecido marron macio a aconchegou e ela recostou fechando os olhos. Ainda estava fraca. Sentiu sede e teve vontade de levantar e ir até a cozinha atrás de um copo com água, mas lhe faltou força nas pernas. Precisava sair dali. Daquele lugar desconhecido, mas que estranhamente se sentia segura. Tinha certeza agora que estava sozinha e respirou fundo. O estômago afundou e ela viu tudo ficar escuro novamente.

* * *

Marc entrou no supermercado refazendo a lista mental e tentando não pensar naquelas sensações esquisitas que começara a sentir desde então. Pegou leite, pão, café, manteiga, queijo, presunto, cereal, chocolate em pó, chá, sabonete, champú, condicionador, perfume, desodorante, esponja de banho, pasta e escova de dente, frutas, verduras, carne, frango, sabão em pó, amaciante de roupa, iogurte, chocolate, sorvete, revista de moda e absorvente. Na fila do caixa, se deu conta que nunca comprou nada parecido para ele antes. Fez as contas de cabeça e se descobriu, enquanto pagava a conta, rastreando possibilidades para arrumar mais dinheiro ainda naquela semana. Saiu do devaneio quando uma mãozinha pequena e enrugada pousou delicadamente em cima da sua. Sem alarde, ele olhou para o lado esquerdo abaixo do seu ombro e viu aquele sorriso tão conhecido.

-Como vai a senhora, Dona Laércia?
-Vou melhor agora, Querido! Faz bem para saúde hidratar os olhos com uma visão tão agradável. Fazendo compras para a esposa?

Dona Lalinha, depois de medir aquele homem, alto, forte e moreno, de camiseta regata branca e bermudas jeans, passou os olhos pelas compras que eram empacotadas e achou difícil um rapaz como aquele e vestido daquele jeito, excessivamente simples e atrativo, ler Marie Claire e usar absorvente noturno. Marc respondeu instintivamente.

-Não, não. Estou com uma prima em minha casa. Acabou de chegar do interior. É a primeira vez dela em uma cidade grande e vim buscar alguns artigos de necessidades pessoais mais urgentes, para ela se sentir mais a vontade.

“Por que eu respondi isso? Enlouqueceu de uma vez?”. Enquanto Marc voltava-se para a atendente e finalizava a compra, Dona Lalinha lhe ofereceu um cartãozinho de visita, cor-de-rosa, em papel de maior gramatura. Marc olhou a pequena senhora e de novo para o cartão até que decidiu pegá-lo.

-Você é um bom rapaz por cuidar de sua prima, Querido - disse, Dona Lalinha – A cidade é sempre agressiva para quem a visita pela primeira vez. Seus horários no Le Quartier são sempre incertos e nunca sei quando te encontrar por lá. Devo ir jantar na próxima terça-feira, como de costume, mas caso você e sua prima precisem de alguma coisa, não pense duas vezes em me ligar.

-A senhora sempre foi muito generosa, Dona Laércia. Sobretudo por suas gorjetas. “Bem sei que a senhora quer meus serviços de acompanhante!”. Mas não penso em incomodá-la. Mesmo assim, obrigada.

Com um sorriso de desmanchar um quarteirão, Marc acenou com a cabeça e se despediu daquela senhora de olhares famintos. Pegou as compras e dirigiu-se até o carro estacionado perto da saída. Então voltou a pensar na garota. “Dormiria ainda?”

Assentou as compras no banco detrás, sentou ao volante e deu partida no automóvel. Tirou o cartão de Dona Láercia do bolso e depois de ler as informações nele, voltou a guardá-lo. “Nunca se sabe do dia de amanhã!” Virou a direita na saída do supermercado e seguiu para casa. “Uma coisa de cada vez. Preciso me concentrar no dia de hoje”. Viu o ponteiro do combustível acender, coçou o queixo, suspirou e pegou a estrada em direção ao leste.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

4 Cidade grande

Helane Carine Aragão

Clarinha olhava para tudo admirada no instante em que a ficha caiu. “Para onde ir agora”? No bolso, poucos reais e um papel amarrotado com o nome de uma mulher escrito: Laércia Carvalho. Nenhum endereço, nenhum telefone para entrar em contato. Ainda na primeira parada na estrada, entrou no banheiro de um posto de gasolina e tirou as roupas sobrepostas do corpo suado e empoeirado.

Na loja de conveniências, se é que se pode chamar aquele amontoado de tranqueiras de loja, comprou um pacote de biscoitos e um litro de água mineral, pensando em economizar com a alimentação dos próximos dias. Cruzava os dedos, desde então, para que na nova parada o banheiro estivesse munido de sabão líquido e, assim, aproveitar um banho improvisado, em uma ducha, quando houvesse, ou na pia. Nem sempre dava sorte. A viagem durou três dias e meio e ninguém foi a procura de Clarinha.

Depois da primeira noite, sentiu falta de uma escova e pasta para os dentes, o que reduziu as reservas financeiras. Mas, apesar do contexto que se encontrava, ali estava ela, em busca de novos rumos para a sua vida e por conta própria. Enquanto andava com a trouxa de roupas na mão observou a magnitude daquela rodoviária. Era muita gente, muito baralho, muito movimento concentrado em um só lugar. Os olhos se moviam em todas as direções, como se anotasse tudo mentalmente. Ao passar a vista por uma pilastra esquecida no meio do burburinho urbano, notou aquele homem. “Lindo!”, pensou ela. “E como ele é alto. E que sorriso incrível.”
O choque foi maior quando percebeu que aquela escultura viva sorria para ela. Em transe, sorriu de volta. Nessa altura, ele já estava em pé na frente de Clarinha, falando palavras que ela não conseguia compreender.

-O quê? – Ela perguntou quando se recuperou do choque.
- Perguntei se você está perdida. Se alguém vem te buscar.

“Que voz doce, parece um anjo cantando. Que dentes lindos! E estão todos aí. E como são branquinhos. Como é alto, e lindo, e perfeito!” Enquanto fantasiava e admirava aquele homem materializado em sua frente, Clarinha perdia os sentidos e via tudo rodar. Sem entender o que acontecia com o seu corpo, teve um momento de lucidez e entendeu que tudo não passara de uma alucinação. Aos poucos sentiu perder o controle das pernas que fraquejaram e que ela cairia em um sono profundo. “Estaria eu sonhando?”

No instante do último lampejo de consciência viu tudo apagar à sua frente. Marc, que olhava a moça, atônito, reagiu instantaneamente ao perceber que ela tombava e a segurou entre os braços. Um policial se aproximou quando percebeu a cena e questionou o rapaz sobre o que estava acontecendo ali.

-É minha prima, senhor. Acabou de chegar de viagem e passou mal. Vou levá-la ao posto de saúde e depois para casa. Não há de ser nada grave.

Enquanto carregava Clarinha no colo, não pode deixar de sentir um súbito arrepio na espinha e o estômago embrulhar. Não entendia porque mentiu e tomou para si a responsabilidade por aquela garota desconhecida O que ele faria agora? Se a levasse para o posto de saúde, como anunciou para o policial, iriam fazer perguntas que ele não saberia responder. Poderia se complicar. Calculou a distância que estacionara o carro e decidiu levá-la para lá. Pelo menos até que ela se restabelecesse.

Apertou o abraço ao redor de Clarinha, acolhendo-a mais perto do peito, quando percebeu os olhares curiosos que os acompanhava durante a passagem Pediu ajuda para um senhor que estava perto do Renault Clio 2004 branco. Agora entendia a utilidade de um carro quatro portas. Se estivesse sozinho, a manobra para abrir a porta do carona e deitar a menina no banco traseiro seria muito mais simples com portas adicionais. Agradeceu a ajuda do senhor e se adiantou em explicar que a prima acabara de chegar de viagem do interior e passara mal. O senhor sorriu compreensivo e foi embora.

Parado em pé, ali, vendo-a completamente indefesa em seu carro, só aguçou o instinto de proteção que sentiu quando pôs os olhos nela minutos antes. Percebeu a fadiga estampada no rosto de anjo moreno e as profundas olheiras que circundavam os pequenos olhos. A respiração parecia normal, mas o aspecto era de desnutrição. Decidiu que levaria ela para casa e quando ela acordasse decidiria o que fazer. “E se ela não acordasse? E se algo mais grave acontecesse no caminho?” Um pavor inexplicável subiu até a garganta provocando uma agonia no peito que nunca havia sentido antes. Não tiraria os olhos dela até que ela estivesse bem.

Fechou a porta e tomou lugar na posição de motorista. Deu partida no carro, lembrando que precisaria sair para comprar algumas coisas para quando ela acordasse. Estacionou o carro em frente ao edifício e carregou a garota, ainda desacordada para o quarto. “Preciso trocar a roupa de cama!”. Deixou-a descansando no sofá enquanto dava uma geral rápida no quarto. Depois a colocou na cama e ficou ali, paralisado sem entender bem porque fazia aquilo e que tipo de sensações eram aquelas que ele estava sentindo. Acreditando que ela dormiria por algumas horas, passou os olhos no apartamento e pegou a trouxa que ela segurava. Encontrou algumas peças de roupa, um pacote de biscoitos, só com farelos, e um documento de identidade. “Maria Clara Couto de Andrade”.

Colocou a identidade onde encontrara, pegou a chave do carro e trancou a porta quando saiu. Leite, café e pão entraram na lista mental que preparou. Não pretendia demorar. Com sorte, ela ainda estaria dormindo quando retornasse.

sábado, 20 de março de 2010

3 Marc

Helane Carine Aragão

Marc estava sentado entediado no engradado de verduras esquecido no canto da rodoviária. Gente indo e vindo e o barulho dos ônibus que partiam ou estacionavam, desembarcando mais passageiros, não foram suficientes para tirar o rapaz do estágio letárgico que se encontrava. Submerso nos próprios pensamentos, o moreno de 1,87m fustigava a unha do dedão da mão direita como se aquilo pudesse dar as respostas que procurava. “Que diacho de vida infeliz!”, pensava.

Largadoo ali, tentava lembrar quem era. De onde veio. Quem eram os seus pais. Nunca os conheceu. Desde que se entende por gente, tem as memórias ligadas ao orfanato, gerenciado por freiras, onde cresceu e passou maior parte da infância. Tinha tudo para ser um garoto bom, se não tivesse percebido que a beleza exótica poderia atrair-lhe o que bem entendesse. Aprendeu a fugir da “prisão de pingüins adestrados” quando completou 12 anos. A malandragem se desenvolveu ao passo que se tornou um grande ator. Aprendeu a chorar tão bem, que podia ser contratado para compor enterro de indigente. Pena que ninguém contratava para esse tipo de enterro.

Com 14 já tinha consciência do que o porte físico poderia render entre as mulheres e com 16 começou a tirar a roupa em cima de um palco de quinta, para coroas e homossexuais. Conquistou um público fiel e foi em uma das apresentações nomeio da semana, com pouquíssima roupa, que um espanhol branquelo, barrigudo e com pouco cabelo fez a proposta. O europeu, com quarenta e poucos anos, se dizia empresário e o convidou para trabalhar em uma das casas noturnas que possuía na Espanha e Portugal. Disse a Marc, na época Marcelo Vinícius, que ele iria começar em Lisboa, onde o público estava mais acostumado com o estilo brasileiro e logo então “evoluísse” seria transferido para a Espanha. O time madrileno era o melhor esquadrão na atividade que o espanhol, José Reyes, conseguiu montar. Além de cariocas, paranaenses e gaúchos, José tinha uma queda especial pelos homens achocolatados da colônia portuguesa.

José fez de Marcelo, Marcel e o transformou no seu brinquedinho mais valioso. O alimentou e contratou um personal trainner para desenvolver e definir a estrutura muscular do garoto. O fez se exercitar por horas, quando não estava trabalhando no clube à noite. Proveu-lhe de roupas despojadas e muito caras, além da sunga box preta brilhante e gravata borboleta que compunham o uniforme de trabalho. O corpo musculoso e delineado passeava entre as mesas, deixando os fregueses animados a fazer um pedido atrás do outro, o que movimentava bem a caixa registradora no fim do expediente. As gorjetas eram generosas, o que proporcionou a formação de uma gorda poupança levando Marcel querer alçar vôos mais altos. Foi em um fim de semana de folga que ele, em Londres e de passagem por um clube badalado, subiu no palco e fez um show sem compromisso. A proprietária do estabelecimento não o deixou mais voltar para José e então nasceu Marc.

Sentado ali, contado os poucos reais que guardava no bolso, ele se lembrava da vida desgastante, mas de bolsos cheios, que conheceu um dia enquanto esteve do outro lado do oceano. Um dia se cansou da vida vazia, das mulheres que o olhavam como um artigo de luxo na vitrine e resolver voltar para o Brasil. O dinheiro que conseguiu juntar, lhe garantiu um apartamento de dois quartos em um bairro mediano e um carro, que pelo tempo de uso, já apresentava sinais de um novo. Se manteve bem por cinco anos, mas as economias já davam sinais de escassez. Andou por bairros de classe média alta, a procura de alguém que pudesse aliar simpatia e garantia de um futuro rentável. Chegou a fazer alguns programas, mas não era muito lucrativo e ele já estava cansado dessa vida.

Arrumou um bico de segurança em um restaurante francês, onde trabalhava quatro noites por semana e lhe rendia o suficiente para viver, sem luxo e extravagâncias. Nunca acreditou no amor. Para ele, paixão é assunto para tolos que tem tempo para perder com ilusões sentimentais. Sempre foi prático e precisou se virar. Sozinho. Quando se sentia amargurado, desse jeito, o destino rotineiramente o levava para a rodoviária, como se quisesse apontar para ele um caminho. Um rumo. E ali ficava, por horas, absorto à realidade sem saber para onde ir e o que fazer.

Foi quando ele a viu. Assustada, os olhos do verde mais bonito que ele já tinha admirado, olhava para tudo em uma mistura de maravilha e assombro. Segurava uma trouxa de roupa amarrotada e não sabia para que lado ir. “Mais uma caipira que vem tentar a vida na cidade grande”, pensou ele. Um sentimento de agonia começou a se brotar em seu corpo enquanto acompanhava de longe aquela criatura. Linda. Desnorteada. Indefesa.

Um certo ar de menina sonhadora o atraiu e despertou um instinto de proteção que nunca havia experimentado antes. Sem pensar muito no que estava fazendo, se levantou e foi em direção a ela. Não entendeu muito bem o que estava fazendo, nem o que diria, só não podia deixá-la sumir no meio da multidão que começava a engoli-la.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

2 Clarinha

Helane Carine Aragão

Clarinha, moça morena. Descendente de mãe índia com pai mulato, saiu cabo-verde, de olhos verdes, mente verde... Toda verde. Quando começou a virar fruta madura, os homens do interior onde fora criada, começaram a cobiçar o sapoti virgem. O pai, dono do armazém, único do lugarejo onde cresceu, não gostou muito da história. Mas comerciante, achou melhor escolher um pretendente e garantir o futuro da filha. Tonico, 15 anos mais velho que Clarinha, cheirava a fumo queimado e suor azedo. E era rico. Muito rico. Possuía fazendas e cabeças de gado para dar de sova. Nunca casara. Também, cheirando daquele jeito, não havia quem o quisesse como genro, nem mesmo o pai mais interesseiro. Clarinha não teve sorte. Aos 14, já estava prometida com horário para namorar no portão até às 20h30, sem supervisão de ninguém. Categoricamente às 18h, todos os dias, ela já estava pronta. Todos os dias sentava no sofá da sala com a janta revirando no estômago para aguardar, pacientemente, o seu martírio noturno.

Tentou se rebelar uma vez. Bateu o pé com força no chão, cruzou os braços no peito, inchou o beicinho, mas não deu muito resultado. Só não apanhou do pai para não ficar avariada e correr o risco de perder o valor. E o pretendente. Enquanto esperava, maquinava fugas mirabolantes ou mergulhava nas páginas românticas de Alencar, seu amante secreto. Se imaginava uma das femininas personagens do romancista, divagava em sonhos intermináveis com finais felizes e ansiava pelo cavaleiro alto, forte, lindo, com todos os dentes na boca e cheiroso, muito cheiroso, que iria chegar debaixo da janela do sobrado simples que dividia com os pais e três irmãos mais velhos, gritaria seu nome e, em um rompante, ela se atiraria pela janela, caindo calculadamente formosa no alazão dourado que a levaria para bem longe dali.

Queria, de verdade, ir para a capital. Estudar e ser doutora de leis. Iria processar todos os pais donos de armazéns que obrigavam filhas de quatorze anos a passar por aquele tipo de tortura psicológica e olfativa. Aos sábados não havia visitas de Tonico, mas a faxina comia no centro da residência dos Pereira, sob rígida supervisão da matriarca da família, que não nasceu general, Clarinha não entendia o porquê. Mas era no sábado o seu momento feliz. Só não era mais perfeito que os domingos de missa, evento mais esperado da semana, pelo menos até o padre enxotar todo mundo da capela depois da pregação, para que ele pudesse se encharcar de vinho e espiar da torre do sino, o bordel - vizinho de muro da igreja - que iniciava função às 17h e pouquinho, bem quando a missa terminava. Estratégico, lógico. As esposas e filhas iam tomar chá e comer bolo na padaria, enquanto os homens de família iam fumar charutos e jogar bilhar na grande mesa verde de feltro verde do bar que ficava no fundo da grande casa vermelha perto da praça. O Bordel de Lalinha. Hoje Dona Lalinha vive na capital e dizem que muito bem, obrigada. Conheceu um viajante, Menescau, que passava pela cidade e, por descuido, entrou na casa vermelha pensando ser uma hospedaria. Chegou pedindo um quarto para descansar da viagem exaustiva e saiu de lá três dias depois, com Lalinha de braço dado e uma grande festa de despedida na porta do casarão, onde as moças que cuidavam da limpeza e de servir as mesas do bar, muito prendadas e com corpinhos bem traçados, acenavam alegremente - e com muita pouca roupa - o casal que deixava a cidade no pau-de-arara enfeitado de fitas azuis e brancas.

Dizem que Lalinha virou “Dona” e não anda mais de pau-de-arara, nem de condução. Dizem que ela só passeia agora pelo estrangeiro. Menescau sofreu um derrame, mas as más línguas dizem que, tirando os mêmêmês que ele grunhe, o bom moço se vira bem sozinho. Nem precisaram contratar uma enfermeira para tratar dos banhos e da higiene pessoal do marido de Lalinha. Eles nem têm uma auxiliar doméstica, porque Seu Memê dá conta dos afazares que uma casa demanda e assim, Dona Lalinha pode aproveitar a vida e a juventude como merece.
Clarinha de vez em quando se desconectava da falação e entrava na história que ouvia a mãe e as amigas contarem, domingo sim, domingo não, enquanto pediam o mesmo chá aguado e o bolo solado na padaria. Clarinha suspirava fundo e desviava sorrateiramente os olhos para o horizonte empoeirado da cidade sem graça, quando deixava escapar certa irritação ao escutar as críticas sobre Lalinha. Na verdade, ela invejava a moça que foi embora com o rapaz que ela queria, para ter a vida que queria, no lugar que queria. Santo Deus, misericordioso! Que sua mãe não sonhasse com esses pensamentos jocosos. Mas, então, o fim de semana agradável, diante de todas as circunstâncias, acabava com a chegada de Tonico, que misturava leite de rosas ao odor já estragado e as acompanhava até a casa. Todo domingo era a mesma coisa. Passou um ano inteiro até que marcaram a data do casório, ou sepultamento, como preferia pensar Clarinha.
O tempo agora era curto e o dinheiro, roubado toda dia, pouco a pouco, da caixa registradora do armazém, não era grande coisa, mas já pagava a passagem para capital e ainda sobrava algum para dormir em algum lugar por um tempo até arrumar um trabalho que a ajudasse a viver e financiar os estudos. Ela seria Doutora de leis. Iria processar todos os pais donos de armazéns que obrigavam filhas de quatorze anos a passar por aquele tipo de tortura psicológica e olfativa e que escondiam o dinheiro em algum lugar que não era a caixa registradora! - E foi assim, em um domingo depois da missa, que Clarinha vestiu três camisas, uma sobre a outra, duas saias e o sapato mais alinhado, de festa, que só possuia graças a sovinice do pai que comprara para garota um tamanho dois números maior, para não perder enquanto crescia. Bem acalhar na ocasião, pois permitiu calçar três meias grossas.

Suou igual a mala velha durante a pregação de blábláblá do padre bêbado safado, mas se saiu bem, já que alegara se vestir daquele jeito para se proteger da friagem, pois não se sentia muito bem de saúde naquela tarde. Discretamente, enquanto sua mãe e amigas encostavam-se no balcão da mesma padaria, para fazer os mesmos pedidos, Clarinha saiu de fininho e foi para a estação rodoviária do outro lado da rua. Um exagero chamar aquilo de estação rodoviária, como pôde Clarinha constatar dias depois. Aquela casinha de pau a pique, no meio da praça, com o vidro quebrado, não poderia nunca ser considerada uma estação rodoviária.
Já sabia os horários da condução, pois prestou bastante atenção na conversa de dois moços um dia na padaria. Um era motorista do ônibus que ia para a capital. Eles conversavam sobre o tempo de trajeto da viagem até o destino final. A lotação sempre saia quase vazia, dali a poucos minutos e a levariam daquela vida desumana que tanto odiava. Pediu a passagem de cabeça baixa e olhos enterrados no queixo, sabendo que havia sido reconhecida, mas que quando dessem por falta dela, ou melhor, quando Tonico fedido a rosas azedas chegasse para buscá-la na padaria, ela já estaria longe dali. Torcia com as mãos fechadas em prece, na última poltrona do ônibus, que Tonico não resolvesse atacar de cavaleiro dos pesadelos em seu inseparável Pé-de-Pano e fosse atrás dela. Quando o veículo deu partida, o coração de Clarinha acelerou e o filme inteiro - do tipo Festival de 1 minuto, que ela conheceria mais velha - de uma infância mais tranquila, passou por seus olhos como um adeus. A estrada em sua frente a levaria em busca de todos os sonhos que vivia através das páginas dos livros amassadas que lia com tanta lamúria, ou pelos pensamentos que permitia a sua criatividade gerar.

Talvez arrumasse uma casa para trabalhar de empregada doméstica. Os sábados de faxina sob o comando da general serviriam, enfim, para alguma coisa. A noite caiu e o cansaço emocional tomou conta do corpo fatigado da menina. Entre pesadelos, que faziam o ônibus parar e um odor fedorento que a atingia do lugar por onde ela olhava pela janela, Clarinha apagou. Conseguiu vislumbrar alguns sonhos em cor-de-rosa desbotado antes de dormir. "Ser uma doutora de leis", foi o último pensamento que ela teve antes de adormecer. “Uma doutora de leis!” e Clarinha partiu em busca de um nova vida.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

1 Dona Lalinha

Helane Carine Aragão

Dona Lalinha era uma senhora de meia idade. A idade exata nem ela mesma sabe dizer. Já mentiu tanto sobre a data de nascimento, que não consegue lembrar exatamente qual é a verdadeira. Atualmente, vive só com o marido, Sr. Menescau, poucos anos mais velho. Seu Memê foi o homem dedicado e trabalhador com quem teve três filhos, que se casaram e que se mudaram para fora do país. Esse é a razão das idas e vindas conntantes aos Estados Unidos, Austrália e Inglaterra, que faz Dona Lalinha suportar o “quase” vazio do apartamento de luxo que mantém em uma grande capital. A senhora tranquila de cabelos loiros “naturais” e olhos verdes arrumou uma maneira, mais ou menos eficaz, para canalizar metade da energia que possui, equivalente a de de uma mulher de 30 anos. Seu Memê não dá trabalho algum. Faz tudo sozinho: anda, come, bebe água, abre a porta para as visitas quando o porteiro eletrônico está quebrado e o elevador em manutenção e até vê televisão, quando não cai no sono mal humorado. Um humor tolerável, segundo Dona Lalinha.
Abigail é amiga de Dona Lalinha desde a infância. Hoje, se não fosse pelo apetite sexual por homens mais novos de Lalinha e pelo apoio moral que uma promove a outra, seria possível arriscar uma relação homossexual entre as duas. Não seria anormal, não para elas. Noites no teatro, viagens, jantares em restaurantes no meio da semana e as sessões de cinema amenizam, para Dona Lalinha, o tédio da rotina diária, quando não está deslumbrada no interior de algum Walmart. Para Abigail, a programação substitui a falta que sente do marido, falecido há alguns anos, e a companhia dos filhos, que nunca quis ter. Não se arrepende. Para ela, a presença de Lalinha devolveu à vida uma nova adolescência, um tanto quanto esquecida com o passar dos anos. Um dia no cinema, juntas, um acontecimento deu uma nova perspectiva para Dona Lalinha.
Era fim de tarde de uma quarta-feira e elas estavam assistindo High School Musical - 1, 2, 3, não fazia diferença. Dona Lalinha sempre quis ser cantora em um musical da Broadway – e um aperto de Abigail em seu braço a tirou do transe emitido pela tela. Dona Lalinha diz quase sentir cheiros e sabores presentes no filme, quando se concentra em uma história. Um tumulto se formou e pessoas, "ou adolescentes cheios de hormônios para ser mais exata", segundo Dona Lalinha, saíram em disparada pelas escadas, quando e alguém gritou:
-“Tarado! Tarado!”
Instantaneamente, Abigail puxou a amiga para correr para a saída, mas não sentiu ela se mover. Preocupada com a paralisia momentânea da companheira, Abigail tentou focar o rosto em Lalinha no meio do escuro e da confusão, sem entender o brilho nos olhos daquela senhora de um metro e meio de altura que tentava desesperadamente encontrar alguém no meio da confusão. Com um sorriso de satisfação estampado no rosto, Dona Lalinha nunca explicou para Abigail o que sentira naquela ocasião, mas, em sua cabeça, um novo de plano de ataque, para resolver com aqueles tremores e aquecimento que sentia repetidamente em seu corpo de tempos em tempos, era arquitetado silenciosamente.
Foi em um domingo de novembro que Dona Lalinha acordou entediada e resolveu ir ao cinema. Sozinha desta vez. Acompanhou por meses, em jornais, rádio, televisão, twitter e facebook, o episódio do tarado que nunca encontraram. Talvez ela tivesse sorte desta vez. Viu no Telecine, na noite anterior, que um filme baseado em uma história de Charles Dickens estreara no cinema perto de casa. Um shopping de classe média alta, com adolescentes moderninhos deveria ser um bom lugar para encontrar o tarado de novo. Vestiu seu vestido de seda preto, passou maquiagem e um perfume sedutor da Victoria's Secret, comprado no Free Shop na volta da última viagem aos Estados Unidos, poucos dias atrás. Arrumou o almoço de Seu Memê e deixou o prato feito no microondas, mais por remorso que obrigação. Conferiu a carteira Dolce & Gabanna na bolsa Gucci e chamou um taxi.
Assim que chegou ao shopping, descobriu uma sessão começando em poucos minutos. Entrou na fila preferencial para comprar o ingresso e pensou: “Bom sinal!”. Ao passar pela entrada da sala, percebeu que o filme era uma exibição em 3D seria necessário usar óculos especiais, nada sexy, sobrepostos sobre os óculos de leitura cor-de-rosa. Notou que não tinha só mães e crianças pelas poltronas. Jovens casais, ou grupos de amigos, já estavam acomodados. “Isso deve ser um bom sinal”, avaliou a situação enquanto procurava um lugar perto de um dos corredores laterais, para se fazer vista quando seu “agressor” estivesse, inconscientemente, a procura dela.
Quando a projeção iniciou, Dona Lalinha perdeu o foco do seu objetivo ali e, encantada, tentava, mais de uma vez, espanar os pequenos flocos de neve que caiam sobre os personagens da história, assim como na ponta do próprio nariz. Quase no final do filme, se viu com a mão esticada tentado acariciar o rosto enrugado do velho que protagonizava o romance. Quando deu por si, os créditos já estavam no final e ela continuava maravilhada com a proximidade da tela a sua frente.
Mas Dona Lalinha estava determinada, tanto que ignorou a chamada perdida em seu Iphone rosa chiclete. Abigail não a entenderia e ela precisava encontrar o tarado. Saiu da sala e comprou uma nova sessão. Desta vez, na companhia de Gerard Butler, Jamie Fox e alguma violência e sangue derramado, ela conseguiria realizar a fantasia inocente. Entrou no cinema e trocou de poltrona três vezes ao notar que os possíveis candidatos estavam acompanhados - dois por jovens mulheres e o terceiro por um coroa muito sarado que Dona Lalinha considerou um desperdício para ambos, inclusive ela.
Resolveu sentar sozinha nas poltronas laterais destinadas a duas ou três pessoas. Distribuía olhares sedutores a todo jovem musculoso que passava ao seu lado a procura de um lugar. As luzes apagaram muito cedo e desgostosa resolveu apreciar o filme, que nem fazia muito o gênero que mais gostava. Dona Lalinha observou que as pessoas reagiam à história de forma incomum. Achavam “tri-legal” o sarcasmo do personagem interpretado por Butler, sobretudo quando ele esquartejava, ironizava ou explodia a cabeça de alguém com um invento de cientista maluco. “Pouco se importavam que o balzaquiano, escocês, ex-alcoólatra e ex-advogado na vida real, estivesse matando inocentes para mostrar o quão frágil é o poder judiciário dos Estados Unidos”, um absurdo, como declarou um dia desses. Os presentes pareciam justificar que Clyde - personagem de Butler, o qual Dona Lalinha já tinha assistido a outros dois filmes estrelados por ele, em menos de 30 dias - tinha um motivo plausível para a matança: a esposa e filha haviam sido brutalmente assassinadas enquanto a casa era assaltada. E o pobre Clyde assistiu a tudo sem poder fazer nada. “Onde o mundo vai para com esse comportamento juvenil?”, apesar de que, ela concordava que os gritos histéricos das jovens tinha uma certa razão, sobretudo numa cena em que ele aparece despido. Entregue às próprias análises e conclusões da trama, Dona Lalinha racionalizava as informações quando uma voz, vinda da poltrona detrás sussurrou em seu ouvido:
-Oi!
Era uma voz suave, máscula e muito sensual. Nervosa, ela respondeu em seu melhor tom:
-Oi!
-Não posso falar alto.
-Eu sei. Ela disse meio envergonhada.
-Só vou sair daqui quando o filme terminar. Quer se encontrar comigo depois disso?
Dona Lalinha tremia tanto que era quase impossível acreditar. Ignorou o comportamento inadmissível da platéia próxima - um garoto emitia gritos de excitação e proferia palavrões aprovando o último assassinato cometido por Clyde – e virou para trás, as bochechas coradas, o sorriso largo e os olhos brilhando de desejo e respondeu que adoraria. Foi só então que percebeu a surpresa, o assombro e a cara de paspalho do homem que segurava um celular em uma das mãos.
Envergonhada, Dona Lalinha voltou para sua posição inicial e se afundou na poltrona querendo diminuir de tamanho e sumir dali sem que alguém percebesse. Não prestou atenção no resto do filme, mas notou o descontentamento da sala lotada com o desfecho que fora reservado para o personagem principal. Depois que todo mundo saiu, ela pegou a sua bolsa e, murcha, caminhou para a saída. Chamou um taxi na entrada do shopping. Passou ao motorista o destino com uma voz que não passava de um chiado. Se arrastou pelo hall do edifício, evitando o próprio rosto refletido no espelho do elevador vazio.
Ao entrar em casa, viu Seu Memê cochilando no sofá da sala. Ela foi até o quarto, tirou toda a roupa e vestiu o roupão de algodão rosa bebê que estava no cabideiro. Voltou para sala e sentou-se ao lado do marido. Pegou o controle remoto para mudar o canal de golfe, pouco comovente, quando sentiu uma mão sobre o joelho direito. Seu Memê abriu os olhos e entre murmúrios incompreensíveis que a tiravam completamente do sério tentou sorrir para a esposa. Com os ombros pesados de culpa e remorso, ela retribuiu o sorriso do esposo e se aninhou nos braços confortavelmente conhecidos. Sentiu o cheio da colônia que o acompanhava há tantos anos e memórias de um tempo quando eram mais jovens - e viris - inundou os pensamentos de Dona Lalinha.
Ela levantou a cabeça e olhou para Seu Memê, com o mesmo olhar que distribuiu naquela tarde. A diferença estava nos estranhos corpos mais firmes que não faziam “mêmêmês” para se comunicar. “Mas por que não?”, ela pensou.
-Amanhã vou marcar uma consulta para você, Memê. Vamos ao cardiologista!
O marido não entendeu o repente da esposa, mas não cabia a ele questionar com murmúrios. Ele a preferia por perto e qualquer tipo de cuidado por parte dela seria sempre bem vindo. Um talk show começou em outro canal e ambos ficaram ali, calados, até o programa terminar. Mais tarde, na suíte do casal, enquanto Dona Lalinha tirava a maquiagem e passava os infinitos cremes pelo corpo, ela mantinha os mesmos pensamentos: “E por que não? Se o Dr. Valadares garantir que não é perigoso para Memê qualquer tipo de atividade sexual, ainda há a esperança da maca do consultório ser utilizada. Sempre achei Valadares um pão e agora que ele ficou viúvo... Por que não? Memê poderia ficar esperando na sala espera e...” um “mememê” alto a tirou do devaneio. Ela voltou para o quarto, afofou o travesseiro e olhou para o marido que sorria feliz como uma criança.
- Durma bem, querido. Amanhã veremos Dr. Valadares.
Ela acomodou-se debaixo das cobertas, desligou o abajur e se preparou para mais uma noite de sonhos inquietos. “Amanhã, Valadares. Amanhã!” e então, pegou no sono.
sono.