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domingo, 6 de junho de 2010

Crônicas Luis Fernando Verissimo de 23/05 a 06/06/10

Zero Hora, 23/05/10

Fuga

Meus sapatos se aproveitaram da minha desatenção e deram no pé

Eu costumava tirar os sapatos no cinema, até que um dia fui recalçá-los e não os encontrei. Não pensei em roubo nem em ratos. Por alguma razão, imaginei que eles tinham fugido.
Era isso. Meus sapatos tinham se aproveitado da minha desatenção e dado no pé. Naquele instante, estavam correndo pela rua, pulando de alegria e batendo os calcanhares no ar para celebrar a liberdade conquistada. Talvez tivessem planejado a fuga havia tempo e só esperassem a oportunidade. O cinema era o lugar ideal. Eles podiam sair furtivamente, no escuro, e sua falta só seria sentida no fim da sessão. E finalmente andariam sozinhos na rua, sem o meu peso para oprimi-los.
Eventualmente, eles entrariam para uma gangue de sapatos fujões ou marginalizados. Um bando de renegados – botinas descartadas, mocassins decadentes, tênis de boa família caídos em desgraça, sandálias Havaianas e alpargatas nordestinas vivendo em louca promiscuidade, sapatilhas rebeldes e, claro, inúmeros pés de chinelo – que andavam pelos becos cheirando cola de sapateiro, chutando latas e sapateando até altas horas. Acabariam na minha porta, pedindo graxa, seu lugar de volta na segurança do meu armário, e perdão. E então me pagariam.
Acabei encontrando meus sapatos. Que não tinham fugido. Talvez só ido dar uma volta.

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Padrões

Durante muitos anos, o padrão de mulher “boa” no Brasil foi o tipo violão.

Mais anca do que peito. Aos poucos fomos nos enquadrando nos padrões internacionais de beleza, embora persistisse a certeza de que o padrão violão era melhor, e os estrangeiros não sabiam o que estavam perdendo. O tipo longilíneo se impôs e hoje nem entre os travestis, esses guardiões das virtudes femininas em desuso, se encontra o formato antigo. Mais uma vitória do colonialismo cultural.
Tese: a evolução do maio teve muito a ver com isso. O advento do biquíni e da tanga condenou a coxa larga a adaptar-se ou sair da praia. A transformação do traje de banho trouxe outros benefícios para a humanidade e seus fundilhos. Ainda peguei o tempo dos calções infantis de pano, que ficavam pesados e ásperos quando molhados e cheios de areia, e nos assavam as pernas e a bunda. E até uma determinada época os “maillots” das moças eram feitos para disfarçar o fato de que elas tinham sexo. Mas a gente sabia que elas tinham, embora não se tivesse bem certeza de como funcionava. Conclusão: bons tempos, nada!

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Robin Hood

Nunca entendi muito bem o sucesso do Russel Crowe como ator. Ele é da linha do Alan Ladd, de quem se dizia que tinha apenas duas expressões: com chapéu e sem chapéu. Fora, talvez, seu desempenho como o informante naquele filme do Michael Mann sobre os podres da indústria de cigarros, em que só precisava parecer ressentido, Crowe enfrentou feras no Coliseu e férias na Provence com a mesma cara, o que não o impediu de ser o ator preferido de Ridley Scott, que também o escolheu para a sua versão de Robin Hood.

Neste caso, Crowe teve que enfrentar o fato de que o Robin Hood definitivo já existia: Errol Flynn, na versão de 1939 dirigida pelo Michael Curtiz, um dos primeiros filmes coloridos feitos em Hollywood. E Crowe não pode nem alegar que seu Robin Hood é mais velho e portanto não deve ser comparado ao do Errol Flynn. O Robin Hood mais velho definitivo também já foi feito, por Sean Connery, formando um inesquecível casal crepuscular com Audrey Hepburn no papel de Marian, num filme dirigido por quem mesmo? Crowe foi atirado, de novo, às feras.

Como todos os filmes de Ridley Scott, Robin Hood é um espetáculo visual à prova de maus atores e maus roteiros. Uma curiosidade: chamaram o Tom Stoppard para dar um jeito no script, mas não se nota sua presença no roteiro nem aparece o seu nome nos créditos, provavelmente a seu pedido. Depois que o James Cameron se revelou um anti-imperialista furioso em Avatar, Ridley Scott faz do seu Robin um insurgente republicano, que só vira um guerrilheiro fora da lei – o filme é, na verdade, um prólogo da lenda do bandido distributivista – quando o rei se recusa a abrandar sua prepotência de origem divina.

As melhores razões para ver o filme são duas atrizes, Cate Blanchett, como uma Marian também já madura, e Léa Seydoux, como a namorada francesa do rei. Os franceses, como se sabe, inventaram o boudoir, uma peça da casa especificamente para a mulher bouder, ou fazer beicinho. As francesas fazem beicinho como ninguém. Léa Seydoux só aparece em cena para bouder, mas o faz magnificamente. Seu beicinho redime o filme.

Zero Hora - 24/05/2010

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Metafísicas

Os gregos foram os primeiros a encarar a metafísica com algo mais do que espanto e reverência. No berço da civilização ocidental, também nasceu o pensamento organizado sobre o invisível, o além e nossa relação com os deuses. Assim, não deixa de ser irônico que na Grécia moderna hoje se testem os limites da outra metafísica, não a dos filósofos, mas a do dinheiro. A que se impôs porque suas abstrações são muito mais potentes do que as aristotélicas – e rendem muito mais. A Igreja medieval condenava o comércio financeiro porque os juros eram produto de uma coisa infecunda, o próprio dinheiro, e portanto antinaturais, além de serem um preço dado ao tempo, que é de Deus. Mas desconfia-se que a Igreja combatia os juros, acima de tudo, para proteger sua metafísica da metafísica emergente do mercado. Acabou cedendo, aceitou os juros para não ficar de fora do melhor negócio do mundo, que é o dinheiro produzido por dinheiro, e hoje não excomunga mais ninguém por usura.

A vitória não foi da realidade do dinheiro sobre a especulação filosófica, foi de uma irrealidade sobre outra. As duas metafísicas se parecem. Como são feitas no ar, só têm os limites que elas mesmas se dão. Aqueles concílios da Igreja em que se discutiam coisas como quantos anjos poderiam dançar na ponta de um alfinete são os antecedentes diretos dos conluios do capital financeiro que geraram as pirâmides de papel desligadas de qualquer lastro real, para o dinheiro produzir cada vez mais dinheiro, cada vez mais abstrato. Na questão dos anjos, a discussão era entre os que diziam que o número de anjos que cabiam na ponta de um alfinete era limitado e os que diziam que era infinito. As mesmas especulações etéreas eram feitas sobre até onde poderia ir a farra do capital especulativo. O que a atual crise mostrou é que o número de anjos é finito.

Mas as metafísicas se autorregeneram. A crise tem significado uma espécie de purgatório para o capital financeiro descontrolado, mas nenhum dos seus beneficiários acabará no inferno. Wall Street reage e retoma seus maus hábitos, na Europa optou-se por um adiamento do pior em vez de uma solução. A metafísica medieval, herdeira da metafísica grega, pelo menos garantia a remissão dos pobres e dos virtuosos no fim dos tempos. A metafísica do mercado só garante felicidade para os espertos.

Zero Hora - 27/05/2010

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Zero Hora, 30/05/10

O Mestre

Eu precisava escrever esta crônica. Tinha pouco tempo e nenhuma ideia. Fazer o quê? Fui procurar o Mestre. Expliquei minha situação. Ele sorriu, paternalmente. O velho problema de sempre. A aflição de todo cronista. Pouco tempo e nenhuma ideia.

– Escreva sobre isso – sugeriu ele, agora com um sorriso irônico. – Sobre a aflição. Sobre o que sente um cronista sem tempo e sem ideias, obrigado a cumprir um prazo.

– Mas, Mestre, isso é o que tem feito todos os cronistas desde os tempos bíblicos. Na falta de assunto, escrever sobre a falta de assunto. Não é novidade.

– Ainda bem que você reconhece – disse ele. – Esse truque não funciona mais. Vamos às alternativas. Que tipo de crônica você quer fazer?

– Bem...

– Séria? Humorística? Opiniática? Lirica? Profunda? Frívola?

– Humorística.

– Que tipo de humor?
– Quantos tipos há?

– Tem o humor fácil, sem um objetivo maior, e que sempre funciona. Um homem escorregando numa casca de banana, por exemplo. O homem escorrega numa casca de banana e cai. Não é uma crônica, mas é um começo. E engraçado.

– E o que acontece depois?

– Aí depende. O tombo pode significar apenas um tombo. Ou a casca de banana pode simbolizar o destino, o homem que cai pode simbolizar a humanidade diante do seu destino e da fatalidade biológica da morte, e toda a crônica pode ser sobre a condição humana e o nosso desespero sem saída.

– E onde fica o humor?

– No final a gente bota uma piada.

– Sei não. Casca de banana...

– Você quer uma coisa mais refinada? Escreva diálogos sofisticados. Os diálogos têm uma grande vantagem.

– Qual é?

– Qual é o quê?

– Qual é a vantagem de diálogos?

– É que enchem mais espaço. O leitor pode ter dificuldade em identificar quem está falando, mas o cronista sem tempo realiza seu objetivo principal, que é chegar ao fim da crônica o mais rapidamente possível.

– Esses diálogos sofisticados...

– São fáceis de fazer. Ao contrário da casca de banana, não precisam provocar gargalhadas, apenas sorrisos. Experimente. Comece um dialogo sofisticado.
– Hmmm. Deixa ver. Homem chega em casa e pede para a mulher: “Prepara um drinque para mim e um banho quente para nós dois”. Mulher diz: “Acho que você já tomou drinques demais”. Homem: “Por que você diz isso, querida?”. Mulher: “Porque esta não é a sua casa e eu não sou a sua mulher”. Homem: “O banho quente, então, nem pensar?”.

– Acho melhor esquecer o humor.

– Sobre o que eu devo escrever, então?

– Tenta algo profundo. A alma. O pré-sal.

– Não tenho tempo!

– Então escreve qualquer bobagem, mas com uma epígrafe do Shakespeare ou do Nietzsche. Qualquer coisa fica séria com uma boa epígrafe.

– Você acha?

– Vamos fazer o seguinte. Inventa um Mestre a quem você pede ajuda. Ele tenta ajudar, e o diálogo de vocês é a crônica. Pronto.

– Mas isso também é um truque!

– E daí? Funcionou. Chegamos ao fim.

– Você não tem mais nada para dizer?

– Tenho. Tiau.

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A Curva dos Olhos-D’Água

Luis Fernando Verissimo

Já contei como foi meu primeiro encontro com o Latim na escola. Não houve encontro. Quando descobri que o Latim fazia parte do currículo no novo ano letivo, decidi que aquilo não era para mim e fugi. Troquei as aulas de Latim por passeios perto da escola. Até hoje não sei como nunca fui pego gazeando as aulas. Ainda se diz "gazear"? A escola ficava no alto de um morro e no pé do morro ficava o Jockey Club de Porto Alegre, o Prado. Na hora do Latim eu descia o morro e ia ver os cavalos treinarem. Fui um frequentador tão assíduo destes exercícios matinais que um dia me vi até segurando um balde para um treinador que escovava seu cavalo. Depois subia o morro e voltava à escola. No exame oral de fim de ano o professor de Latim apertou minha mão e disse "muito prazer", pois só me conhecia de nome. Tive que repetir o ano, claro.

Infelizmente, minha frequência nos bastidores do hipódromo não me transformou num expert em cavalos e corridas. Só o que aconteceu foi que passei a acompanhar o noticiário do Jockey, que naquele tempo ocupava bastante mais espaço nos jornais e nas rádios do que hoje, pelo menos em Porto Alegre. E gostava de ler a descrição das corridas nos jornais ou ouvi-las sendo narradas no rádio. A primeira curva da pista do Prado depois da reta de chegada era chamada de Curva dos Olhos-D’Água. Eu achava bonito aquilo: Curva dos Olhos-D’Água. Nunca descobri se haviam vertentes atrás da curva, para justificar o nome. Preferia pensar que a razão do nome era puramente poética. Como a que inspiraria, anos depois, o Chico Buarque a compor a sua "Morena dos olhos d’água", a única outra referência literária à expressão que eu conheço. Quando o Jockey Club mudou de lugar, fizeram um parque no local e, que eu saiba, não encontraram olhos-d’água no terreno. Talvez fosse mesmo apenas literatura.
Cheguei a pensar que, se um dia escrevesse um livro sobre aquele garoto que fugia do Latim e ia ver os cavalos, o título seria "A Curva dos Olhos-D’Água". Significando nada, apenas para não desperdiçar o nome. Como o livro não sairá, vai uma crônica mesmo.

(Blog do Noblat, Globo on line, 30/5/2010)


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Expectativas

Cada Copa do Mundo é diferente e – no Brasil – cada pré-Copa também. Mudam as manifestações de esperança ou dúvida que acompanham nossa seleção, de acordo com a expectativa do momento. E raramente a realidade corresponde à expectativa.

Depois do bicampeonato mundial de 58 e 62, fomos para a Copa de 66 convencidos da nossa invencibilidade. Afinal, tínhamos não apenas o melhor jogador em atividade no mundo, mas o melhor jogador em atividade no mundo com 25 anos. Mas quebraram o Pelé na Copa de 66 e o time desmoronou.

Em 70, a Seleção viajou para o México em meio a uma descrença difusa mas indisfarçável. A fase de preparação fora conturbada. Tinha havido o problema com o João Saldanha, dispensado como técnico por alegadas razões políticas e substituído pelo Zagallo. O próprio Pelé não era mais uma unanimidade, e chegaram a dizer que ele não estava enxergando bem. Além da miopia do Pelé, nos faltava um centroavante, pois o Tostão claramente não tinha o físico para o papel, e nossa defesa era fraca. Não podia dar certo. Deu certíssimo.

Curiosamente, quatro anos depois ninguém estava muito animado com a Seleção. Não ajudou muito a declaração do Zagallo, feita em “off” mas entreouvida e transmitida, de que sua única esperança era cavar faltas perto da área dos adversários e confiar nos nossos cobradores. Os cobradores não nos salvaram.

Em 78, o ceticismo geral se concentrou no capitão Coutinho e no seu linguajar tecnocrático, mas aquela Copa já tinha dono antes de começar, a Argentina. Nada teria feito muita diferença para os brasileiros, nem outro técnico, nem o jovem Falcão no lugar do Chicão.

Nenhuma Seleção saiu do Brasil mais oba-obaizada do que a de 82. Era a Seleção da melhor geração de craques brasileiros desde a da Copa de 50. Júnior, Falcão, Cerezzo, Sócrates, Zico, Eder... Não podia perder e perdeu. Como a de 50, aquela geração também ficou sem sua apoteose. Teve outra oportunidade no México em 86, mas aí já era tarde.

Na Itália, em 90, nascia o que o Armando Nogueira batizou, com desgosto, de a Era Dunga. Quatro anos depois, nos Estados Unidos, o desacreditado Dunga liderou uma vitória brasileira que ninguém esperava, desagravando a sua biografia, mas nem assim convencendo todo o mundo.

Na Copa de 98, a realidade derrotou a expectativa de que 94 se repetiria, mas foi uma realidade tão estranha – convulsões misteriosas do Ronaldo e inéditos gols de cabeça do Zidane no último jogo –, que resiste a qualquer tese, e não conta.

Ronaldo era a grande incógnita da Seleção de 2002, e a vitória da seleção no Japão foi uma vitória pessoal do jogador, numa bela história de remissão que soaria inverossímil como literatura.

Finalmente, as grandes esperanças com a Seleção de 2006 se justificavam. O período de preparação tinha sido empolgante. Quem poderia prever que o futebol de Ronaldinho, Kaká e os outros desapareceria como flocos de neve no verão alemão?

E vamos para a África do Sul cheios de... O que, exatamente? Entusiasmo, digamos, reticente, ou desesperança resignada? Certeza só a do Dunga, que ou volta definitivamente acreditado, ou desacreditado para todo e sempre.

Zero Hora - 03/05/2010

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Zero Hora, 06/06/10

O escalado

Boa tarde, auditório! Boa tarde, telespectadores! Vocês me conhecem do teatro, do cinema e da televisão e agora aqui estou eu, escalado pela emissora, não me perguntem por que, para apresentar Não Ria e Fique Rico, o novo programa milionário da TV brasileira que todas as semanas trará a felicidade para um participante, que poderá sair daqui com até R$ 500 mil no bolso. Quinhentos mil reais! Não ganhei isso nem fazendo novela, quando eles sabiam me aproveitar. E sem mais demora vamos chamar nossos três participantes de hoje, escolhidos entre milhares que nos escreveram pedindo para participar, começando por... Eloir Dalvento! Boa tarde, dona Eloir! Tome seu lugar atrás desse... dessa...desse negócio aí. Isso. Em seguida, vamos chamar... Marcos Pontiagudo! Boa tarde, seu Marcos! Fique aí ao lado da dona Evoni. Eloni? Eloir, claro. Desculpem, eu não dormi bem essa noite. Quem dormiria, depois de receber um ultimato como eles me deram? Ou faz o programa ou... Bom, esquece. Vamos começar Não Ria e Fique Rico! Nossos três candidatos estão a postos e... Espera. Falta um candidato. E ele é, deixa ver... Não é ele, é ela. Dalva Florimar! Aplausos para a dona Dalva, auditório! Fique ao lado do seu Marcos nesse troço. Púlpito. Acho que isso se chama púlpito.
Quem se importa? Vamos lá. Atenção para as regras do jogo. Na frente de cada um de vocês há um botão. Um verde, um amarelo e um vermelho. Quando eu fizer uma pergunta... Desculpem. Não é nada disso. Antes das perguntas, cada um de vocês tem que girar a Roda da Felicidade. É isso, produção? Não consegui decorar o roteiro do programa. Estou acostumado a decorar roteiros de novela e peças de teatro... Eu já fiz Shakespeare. Alguém me viu? Uma adaptação livre de Otelo passada na Inglaterra em que Otelo era gay e a Desdemona se chamava Desmond. A Barbara Heliodora odiou, mas disse que eu me salvava do caos. Mas deixa isso pra lá.. Cada um faz girar a Roda da Felicidade. Se a roda parar no mês de aniversário do concorrente ele ganha R$ 10 mil, se cair no mês de aniversário de outro concorrente, este ganha os R$ 10 mil, e se não cair no mês de aniversário de ninguém, acontece alguma coisa engraçada com a pessoa que girou a Roda da Felicidade. Derramam uma lata de tinta amarela na sua cabeça ou aparece um palhaço para tentar lhe dar um beijo e deixá-la lambuzada de vermelho, ou vem um lagarto verde e...e...Faz o quê, mesmo, produção? Enfim, depende do botão que os outros dois apertarem, ou de quem apertar um botão primeiro, ou alguma idiotice parecida. Ah, importante: os outros dois não podem rir, aconteça o que acontecer, senão não apenas não ganham nada como têm que pagar à emissora. Depois vem as minhas perguntas sobre os afluentes do Amazonas e as capitais da Europa. Isso se eu ainda não tiver saído correndo e gritando deste estúdio. Mas vamos lá! A senhora primeiro, dona Heloísa! Gire a Roda da Felicidade! E pensar que eu fiz dois anos de laboratório e três de expressão corporal, para isso...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Na dividida

Luis Fernando Verissimo

Contam que depois de um vexame do David Beckham num jogo da Copa na Alemanha, sua mulher Victoria teria ligado para seu celular e dito algo como “Anime-se, baby. Seu cabelo estava ótimo”.

Uma frase cheia de sentidos. Significava que futebol é apenas futebol e que nada é tão trágico que não tenha suas compensações. Significava que ninguém deve se abater com um tropeço passageiro porque a vida continua e pode ser bela, ainda mais se você é o David Beckham e tem o seu cabelo. Mas, pressupondo-se uma dose de cinismo no comentário da Victoria, que era uma das “Spice Girls”, ou garotas apimentadas, a frase era para lembrar o marido das suas prioridades: tudo pela Inglaterra, certo, baby, mas acima de tudo a sua imagem. A seleção não era tão importante quanto o estado do seu cabelo.

Com os jogadores de futebol ganhando cada vez mais e, portanto, sua integridade física valendo cada vez mais, não é de admirar que na hora de meter o pé para dividir uma bola a questão das prioridades passe pela sua cabeça, em meio segundo. Arriscar tudo – perna, sustento da família, contratos de publicidade, futuro – na dividida, ou esquecer tudo isso e entrar, pela camiseta ou pela pátria, para rachar? Uma crítica feita a alguns jogadores brasileiros naquela Copa era que estariam mais preocupados com suas imagens pessoais do que com o sucesso do grupo. Cada um tinha o seu cabelo do Beckham para cuidar.

Não sei até que ponto a decisão de chamar o Dunga para dirigir a seleção nasceu desta constatação, justa ou não. Ninguém imaginava que ele fosse um estrategista, mas se existiu um jogador que nunca hesitou em entrar de corpo, alma e cabelo numa jogada, na história recente do futebol brasileiro, foi o Dunga. Ele teria sido contratado menos como técnico do que como exemplo. O que torna toda a discussão sobre planos e táticas e jogadores convocados ou não convocados um pouco irrelevante. Dunga nunca escondeu o tipo de jogador que prefere, e foi coerente. Sua coerência como treinador é a mesma do jogador que entrava na bola sempre com a mesma decisão, sem pensar em se autopreservar. Anunciando sua convocação coerente apesar de toda a pressão, Dunga foi, mais uma vez, na dividida.

Zero Hora - 17/05/2010

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O medo do Fasntasma

Luis Fernando Verissimo

Um espectro rondava a Europa na semana passada – o espectro da Europa de antigamente. O espectro de interesses em conflito e nacionalismos irreconciliáveis que a nova comunidade europeia tinha vindo exorcizar. Ainda não se sabe se o pacote amarrado para ajudar a Grécia e os outros países agonizantes vai dar certo, mas pelo menos não se fala mais – por enquanto – dos terrores da semana passada: o fim do euro, o fim da união europeia, o ressurgimento da velha Europa do seu túmulo.

A discussão sobre o ajuda não ajuda a Grécia e os outros de certa forma reeditou a discussão que precedeu a criação da união, entre os políticos, que defendiam a nobre ideia de comunidade e de superação do passado, e os economistas, que tinham dúvidas. Agora como antes, ganharam os políticos, para salvar a ideia, mas o ceticismo dos economistas se justificava. Nenhum político se lembrou de que uma moeda única impediria países em dificuldade de jogar com o câmbio e a desvalorização ou valorização da sua moeda nacional para resolver suas crises. Hoje, os economistas podem se dar o pequeno prazer da frase triunfal “Eu não disse?” – enquanto são mais uma vez forçados a apoiar uma ação que contraria a sua ortodoxia. O medo do fantasma superou o medo da inortodoxia.

Há outro confronto por trás da hesitação em salvar os países em crise, esse tão antigo quanto a Europa: o sóbrio, frugal, luterano e ligeiramente bárbaro Norte contra o frívolo Mediterrâneo e seus arredores católicos, mais dados a irresponsabilidades financeiras. Este contraste agora tem um complicador novo. O remorso por tudo que tinha aprontado na história da Europa fazia da Alemanha um parceiro relativamente dócil, mesmo que dominante, na aventura do euro. Mas a frau Merkel e sua geração não têm idade nem para ter sido da juventude hitlerista. É uma geração sem culpa, para a qual “nacionalismo” é uma palavra sem outra conotação além do seu apelo eleitoral. Mas este confronto também foi superado pela emergência que ameaçava a união, e até a frau Merkel concordou em ajudar.

A comunidade está salva. Por enquanto.

Contra-ataque

Luis Fernando Verissimo

No outro dia escrevi que a humanidade não tem defesa contra cataclismos naturais como terremotos, tsunamis e erupções de vulcões, mas a verdade é que temos, sim, meios para contra-atacar. Eles só permanecem hipotéticos porque nunca foram testados. Há anos se especula o que aconteceria se toda a população da China pulasse ao mesmo tempo, por exemplo. Nada demais, só um pulinho – mas todos juntos. O possível efeito de um salto coletivo de 1 bilhão de chineses seria um deslocamento do eixo da Terra, com consequências imprevisíveis.

O Leitor Mais Racional, que é um chato, deve estar se perguntando se deslocar a Terra do seu eixo não causaria desastres naturais ainda mais terríveis. O Leitor Mais Racional não pegou o espírito da coisa. O pulo dos chineses não visaria intimidar a Terra ou simplesmente retaliar os seus ataques. Seria uma demonstração do que a humanidade é capaz, se juntar as suas forças. Um gesto desafiador, para a Terra saber com quem está tratando. Para a Terra saber que não seremos varridos da sua superfície sem uma luta, nem que seja simbólica.

A China seria escolhida para nos vingar porque é o lugar onde tem mais gente no mundo, e porque historicamente sabe arregimentar a sua gente. Como na piada do Millôr sobre a construção de túneis na China: 10 mil chineses começam a cavar um túnel num lado da montanha, 10 mil chineses começam a cavar do outro lado da montanha. Se eles se encontrarem no meio, fazem um túnel. Se não se encontrarem, fazem dois túneis. Recentemente o governo da China determinou que todo o país seria capitalista e só o governo seria comunista – e deu certo! Perto disso, conseguir que toda a população pule ao mesmo tempo a um sinal de Pequim é barbada.

E se depois do susto a Terra continuasse a nos aterrorizar, não nos entregaríamos. O próximo passo seria as populações da China e da Índia pularem ao mesmo tempo. Mesmo que o globo terrestre, descontrolado com o golpe duplo, saísse da sua orbita e se chocasse contra o Sol, nos levando juntos, seria um fim glorioso e uma vitória moral. Teríamos mostrado que não somos apenas uma praga de piolhos em breve passagem por um dos planetas menores, esperando, sem ação, a creolina.

Somos gente, gente.

Zero Hora - 10/05/2010


segunda-feira, 10 de maio de 2010

Acolchoado

Luis Fernando Verissimo



- Nem te conto...

– O quê?

(O casal estava no carro, voltando de uma festa na casa de amigos. Marjori e Mário Luiz, idade entre 35 e 40 anos, classe B, B e meio, por aí.)

– Eu fui no banheiro...

– Eu vi.

– Você viu? Você passa o tempo todo me cuidando, Mário Luiz?

– Não, Marjori. Você tinha bebido, e eu achei que você estivesse passando mal.

– Eu quase não bebi e não estava passando mal. Fui fazer xixi.

– Está bem, está bem. O que você ia contar?

– Eu estava perfeitamente sóbria. Aliás, acho que era a única pessoa sóbria na festa.

– Está certo! Agora conta.

– Você sabe que o assento da privada no lavabo da Celinha é acolchoado?

– Acolchoado?

– E não só isso. O acolchoado é zebrado.

– Como, zebrado?

– Zebrado! O tecido que cobre o acolchoado tem um padrão de zebra. Preto e branco.

– E daí?

– Como “e daí”, Mário Luiz? O que é que isso te diz?

– Não me diz nada. Acho até bem bolado. Não há razão pra gente não ficar confortável quando...

– Mário Luiz! Era no lavabo. Se fosse no banheiro da suíte deles, vá lá. Não me interessa o que a Celinha e o Germano têm no banheiro deles. Mas isso era no lavabo, no banheiro das visitas. A Celinha estava fazendo uma declaração pública. Aquilo é uma mensagem ostensiva da Celinha para quem vai na casa dela.

Então: uma gentileza dela para as visitas. Pro bumbum das visitas.

– Você não acha um acinte? Quase uma provocação?

– Por quê?

– Francamente, Mário Luiz. Eu me lembro de quando você ficou indignado com o cortador de cabelinho do nariz que a Flávia trouxe da Europa pro Mingão.

– O cortador de cabelinho do nariz era de ouro. O assento da privada é de quê? Espuma? No máximo de espuma.

– E o simbolismo da coisa?

– Simbolismo de quê? Da decadência do Ocidente? Do ponto em que chegou a alienação da elite brasileira? E você não pensou que podia ser kitsch de propósito?

– O que é kitsch de propósito?

– É quando alguém faz alguma coisa como forrar o assento da privada com um acolchoado zebrado sabendo que é kitsch e esperando que os outros entendam que o kitsch é de propósito, e achem graça. Você simplesmente não entendeu o assento da privada da Celinha, Marjori.

– Como você mudou, hein Mário Luiz.

– Eu mudei?

– E pensar que nós nos conhecemos num congresso de estudantes em Cuba.

– Marjori...

– Francamente, Mário Luiz!


Zero Hora - 09/05/2010

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Cordialidade

Luis Fernando Verissimo

A tese da cordialidade inata do povo brasileiro, exposta pelo historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda no seu magnífico Raízes do Brasil, foi mal entendida e criticada. A ponto de seu autor precisar explicar que não chamara o brasileiro de essencialmente bom ao destacar traços da sua personalidade, como a hospitalidade e a generosidade, que impressionavam os estrangeiros. Os críticos, ou tinham escolhido sinônimos para “cordialidade”, como fraqueza e irresolução, que não constavam da intenção da tese, ou simplesmente chamavam a tese de absurda, dadas as evidências em contrário na nossa história e nas nossas relações sociais. Ninguém melhor do que Sérgio Buarque de Holanda sabia da truculência e da crueldade presentes nas nossas vidas desde as primeiras caravelas, sua tese estava longe de ser um desagravo do brasileiro, mas o mal-entendido persistiu. E com o tempo a “cordialidade” apontada pelo historiador ganhou significados novos e menos nobres. Hoje é sinônimo do deixa-pra-lá-ismo que domina a moral nacional, e que não deixa de ser uma forma de generosidade com o próximo. Não somos tanto cordiais como desleixadamente coniventes.

Mas o sentido original da tese do Sérgio Buarque de Holanda foi recuperado, há dias, pelo ministro do Supremo Eros Grau, ao atribuir as anistias dadas, tanto a recente quanto as outras no nosso passado, à cordialidade inata do povo brasileiro. Está no seu voto de relator, um voto perfeitamente respeitável, ainda mais que Grau foi perseguido pela ditadura e tinha motivos pessoais para votar contra manter o perdão sem exceção. Mas invocar a velha tese da cordialidade para justificar o perdão foi estranho. Poucas vezes na nossa História a cordialidade brasileira foi tão dolorosamente desmentida como nos porões da última ditadura, onde a tortura, expressamente ou implicitamente autorizada pelo braço armado do Estado, foi prática sistemática. Um voto a favor da velha e simpática concepção de cordialidade brasileira deveria ser um voto contra a impunidade dos que a desmentiram oficialmente e institucionalizaram seus crimes, tanto que hoje rejeitam sua averiguação sob pretexto de proteger a instituição. “Cordialidade”, no caso, sendo sinônimo de convívio civilizado, em qualquer circunstância.

Grau e os outros que votaram contra a revisão da anistia votaram não pela cordialidade, mas pela sua deturpação. Votaram para deixar pra lá, e pela conivência.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Outra carta da Dorinha

Luis Fernando Verissimo



Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, não revela sua idade e diz que não comemora mais aniversário “para não banalizar a data”. Nega, no entanto, que ela e o Ruy Barbosa “ficaram” durante uma festinha. Depois de tantas plásticas, Dorinha está pensando em fazer um teste de DNA para saber se ela ainda é ela, pois desconfia que só o que sobrou de autêntico foi o botox. Dependendo do resultado do teste, se lançará como candidata à presidência da República, com o slogan “O que é que a Dilma não tem que eu também não tenho?” Segundo a Dorinha, se a História do Brasil prova alguma coisa, é que presidente homem não dá certo. “Cromossomo não é neurônio” , é outras das suas frases de campanha. Ela procura o apoio de uma sigla decente, já que as indecentes estão todas comprometidas. Espera formar uma coligação, sendo esta a primeira vez na sua vida em que pede uma aliança sem precisar dizer que está grávida. Sua campanha... Mas deixemos que a própria Dorinha nos conte. Sua carta veio, como sempre, escrita com tinta roxa em papel violeta, cheirando a “Mange Moi”, um perfume condenado pelo Vaticano.

“Caríssimo: beijíssimos! Sim, minha campanha está nas ruas, seguida, por enquanto, apenas pelos cachorros. Nas pesquisas estou empatada com não sabem ou não quiseram opinar. Mas as pesquisas são falhas: ignoram um grande segmento da população, formado por todos os meus ex-maridos. (No momento, por sinal, estou livre como um táxi, e só aceitando corridas curtas). Contratei um marqueteiro para orientar minha campanha, mas o despedi depois que ele sugeriu que eu me apresentasse com os netos, para ganhar o voto coisa mais fofa. Eu sempre disse que os netos são como as rugas para mostrar a idade, com a diferença que para as rugas têm cremes. Vou cuidar da minha própria imagem na TV, expondo meu ideário político e econômico (por exemplo: sempre achei que não há nada de mal com a concentração de renda se for feita com bom gosto) e os meus seios. Quero ver o Serra fazer o mesmo! Aliás, me ofereci para ser a vice na chapa do Serra, mas recusaram, com a absurda alegação de que eu ofuscaria o candidato nos palanques. Só um poste não ofuscaria o Serra, mas o Marco Maciel não aceitou. Dizem que o Serra falando em comício é tão chato que o público aplaude microfonia! Enfã, estou na luta e espero o seu voto. Da tua Dorinha”.


Zero Hora - 03/05/2010

O poder dos garçons

Luis Fernando Verissimo


– Excelente, excelente – disse o homem, limpando o que restava de molho no prato com um pedaço de pão. – Diga ao chef que eu quero cumprimentá-lo.

– Ele já vem falar com o senhor – disse o garçom. – Para agradecer.

– Me agradecer? Por quê?

– O senhor não viu como o restaurante está cheio? Tudo devido aos seus elogios. Desde que saiu sua crítica no jornal, o restaurante tem estado sempre assim. Lotado.

– Mas... Como é que ele sabe que o crítico sou eu? Sempre venho incógnito. Faço questão.

– Eu disse quem o senhor era.

– Você? Mas como você me reconheceu?

– Sei tudo sobre o senhor. Me informei. Pesquisei. Fiz questão.

– Mas por que você... Ah, aí está nosso chef! Olhe, parabéns, viu? Desta vez você se superou. Obrigado por um grande jantar.

– Eu é que quero agradecer – disse o chef. – Pelo que você escreveu a meu respeito. O restaurante tem estado sempre assim, lotado, por sua causa. Devo meu sucesso a você.

– O que é isso? O sucesso se deve a sua comida. A seu talento. Eu não fiz mais do que escrever a verdade. Modestamente.

– Não. Você não sabe o poder que tem. Uma palavra sua pode fazer ou desfazer um restaurante, uma reputação ou uma vida. E salvou a minha.

– Por favor...

Mas por que você nunca se identificou antes? Eu teria preparado alguma coisa especial. Como, aliás, preparei hoje, depois que o Almiro aqui me disse quem você era.

– Faço questão de ficar incógnito, justamente para não ter tratamento especial. Mas agradeço a sua gentileza. Ela só confirmou minha opinião a seu respeito. Muito obrigado.

– Muito obrigado a você – disse o chef, afastando-se. – E volte sempre.

– Voltarei com muito prazer – disse o homem.

– Mil folhas? – perguntou o garçom, que permanecera ao lado da mesa, acompanhando a conversa. – É uma especialidade da casa.

– Não, obrigado – respondeu o homem. – Só um cafezinho. Mas, me diga uma coisa: como você sabia quem eu era?

– O senhor também mudou a minha vida. Eu tinha um restaurante, maior do que este. Com uma boa clientela e um futuro promissor. Então saiu uma crítica sua no jornal arrasando meu restaurante e ridicularizando minha comida. O senhor não sabe o poder que tem. Foi o começo da minha ruína. A clientela desapareceu. Me endividei e perdi o restaurante. Minha mulher me abandonou e levou as crianças. Tive que começar a trabalhar de garçom, pulando de lugar em lugar, vivendo de gorjetas. E durante todo esse tempo, tratei de me informar a seu respeito. Cheguei a segui-lo na saída do jornal, só pensando numa coisa: vingança, vingança. Há uma semana comecei a trabalhar aqui. Hoje vi o senhor entrar e pensei: finalmente nos encontramos. Chegou o dia. Vou me vingar.

– Ma-mas... Se vingar como?

– O senhor saberá quando começarem as cólicas.

– Mas não foi você que preparou a comida!

– No caminho entre a cozinha e a mesa, a comida esteve dois minutos sob minha jurisdição. Não foi preciso mais do que isso. Esse é o poder dos garçons.

– Mas, mas...

– O café é expresso?


Zero Hora 02/05/2010


quinta-feira, 29 de abril de 2010

Uma tradição

Luis Fernando Verissimo

Quando Catarina, czarina de todas as Rússias, convidou o enciclopedista francês Denis Diderot para ser uma espécie de filósofo em residência no palácio Hermitage, em São Petersburgo, estava seguindo uma tradição que começara anos antes com o convite da rainha Cristina da Suécia a René Descartes para ir dar uma sacudida intelectual no seu reino. Anos mais tarde, Frederico o Grande, da Prússia, também quis ter o seu francês e mandou buscar Voltaire para ser seu interlocutor e consultor literário e legitimar sua pretensão a rei-filósofo, um legítimo produto do Iluminismo.

Descartes, com sua ideia doida de que o homem inventara Deus com a razão que Deus lhe dera, foi hostilizado pelos pensadores locais como já tinha sido combatido pela Igreja na França. Escreveu de Estocolmo para um amigo: “Me parece que aqui as ideias congelam, exatamente como a água”. Foi o frio da Suécia que o matou, embora se desconfie que os médicos da corte, inspirados pelo ciúme que ele provocava, tenham ajudado um resfriado a se tornar mortal.

Denis Diderot ficou dois anos em São Petersburgo. Seu relacionamento com a czarina e sua corte foi no mínimo pacífica e a separação foi amigável. A visita de Voltaire ao palácio de verão de Sans Souci, perto de Berlim, se estendeu para três anos e foi feliz enquanto durou – ou até Voltaire ser preso a mando do rei quando tentava voltar para casa, acusado de quebra de contrato e corrupção e de ter roubado alguns dos seus poemas eróticos, provavelmente a acusação que mais doeu. Mas é curioso como os três (entre outros, como Rousseau, Condorcet, D’Alembert, que também levaram conselhos franceses a poderosos de outras terras) foram adotados por monarquias absolutas justamente por serem notórios hereges, cuja crítica à ortodoxia religiosa implicava, por tabela, uma crítica a todo poder absolutista, e cujas ideias mais tarde dariam origem às revoluções republicanas. (É de Diderot a frase “A humanidade só será livre no dia em que o último déspota for enforcado com as tripas do último padre”).

Talvez os monarcas intuíssem que mostras de inquietação intelectual e credenciais progressistas os salvariam da onda racionalista que se aproximava, ou talvez apenas quisessem intelectuais iconoclastas aos seus pés, como animais domados. Mas qual era a razão dos intelectuais para aceitarem os convites? Na época, não se recusava um bom patrono, ainda mais um patrono com verbas reais, mas mesmo assim... Já era, então, a questão, que atravessaria a História, da relação dos intelectuais com o poder e do poder com os intelectuais. Onde terminam a fascinação e a vaidade e começa a cumplicidade, onde termina a admiração e começa a cooptação.

Zero Hora - 29/04/2010

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Impactos

Luis Fernando Verissimo

Poucas coisas na vida são tão impactantes quanto uma grande orquestra tocando num espaço pequeno. “Impactantes” é a palavra certa: o sonzão da banda nos bate no peito, nos cerca por todos os lados e nos derruba, quase que literalmente. Uma boa banda é empolgante em qualquer circunstância. Quando a circunstância é um bar onde o som não tem para onde ir a não ser pelos seus ouvidos, diretamente para suas entranhas, a experiência é inesquecível. Lembro que tive essa sensação quando ouvi a banda do Count Basie tocar no velho Birdland, em Nova York, há uns 200 anos. O Basie ainda era vivo e eu também. O Birdland que existe hoje, em outro endereço, é uma versão racionalizada do Birdland de então, um porão apertado, com o teto baixo. Você pagava a entrada, descia uma escada e podia escolher: para a esquerda tinha um cercado com cadeiras para quem só queria ouvir; para a direita, mesas para quem podia pagar mais, o que nunca era o meu caso. Ao primeiro acorde da banda do Count Basie, rebatido pelo teto baixo do Birdland, eu caí da cadeira. Exagero, mas foi como se.

*

Tudo isso para contar que tive uma sensação parecida há poucos dias ouvindo a banda Mantiqueira no bar Tom Jazz, em São Paulo. A orquestra, com suas 13 figuras, ocupava quase metade do espaço do bar, sem contar o mezanino. Música brasileira de primeira qualidade, feita por virtuoses brasileiros, liderados pelo legendário Proveta no sax alto e clarinete, autor, também, da maioria dos arranjos. Casa lotada e entusiasmada. Ao primeiro ataque da banda, só não caí da cadeira, nem metaforicamente, por falta de espaço. Fantástico.

*

Outra experiência inesquecível em São Paulo foi ouvir a Mônica Salmaso cantando num teatro com o André Mehmari. Só os dois, voz e piano. Uma das melhores vozes e um dos melhores pianos que você pode ouvir em qualquer lugar do mundo. E um repertório perfeito, que incluía o Senhorinha, do Guinga e do Paulo César Pinheiro, como se sabe a coisa mais bonita feita no Brasil depois da Patrícia Pillar.

*

E já que estamos falando de prazeres musicais, não deixe de ouvir o novo CD do Edu Lobo. Novas composições do Edu (algumas com o acima citado Paulo César) e alguns prazeres antigos, como quatro canções feitas pelo Edu com o Chico Buarque para os musicais Cambaio e o antológico Grande Circo Místico

Zero Hora - 26/10/2010

domingo, 25 de abril de 2010

As infláveis

Luis Fernando Verissimo


Como se compra uma mulher inflável? Foi a pergunta que me fiz um dia, e não soube me responder.

Você entrava numa sex shop e pedia para ver o que eles tinham?

(Você: “Mulher inflável?” Balconista: “No fundo, entre os arreios e as bolinhas japonesas”.)

Não, pensei. Sex shops não deviam vender mulheres infláveis, a não ser as mais bem estocadas. Talvez se comprasse pelo correio. Pela internet, isso. Procurei mulher inflável no Google. E encontrei! Mulheres feitas de vinil, da cor que se quisesse, em tamanho natural, com algo chamado de Cyber Skin nos orifícios. Vinham numa caixa.

Como seria a caixa? Parecida com uma embalagem de pizza, com a mulher dobrada dentro? Viria uma bomba de ar junto ou você mesmo teria que assoprar para enchê-la, no primeiro ato de intimidade entre os dois? Você lhe dando vida com seu sopro, como o Deus da criação. Depois passando a mão pela sua pele de vinil, testando o Cyber Skin com o dedo, tomando posse. Elas já viriam da fábrica com nome – Suzy, Carol, Natasha – ou caberia a você também batizar a recém-nascida, ou recém-inflada? Cloé, pensei. A minha se chamaria Cloé. Ou talvez Pleshette.

Decidi que, antes de seguir adiante, deveria consultar alguém que tivesse experiência com mulher inflável. Me indicaram o Fred (o nome dele, claro, não é este), que já teve várias.

– A vantagem da mulher inflável, Aloísio (meu nome, claro, não é este) – disse ele –, é justamente a variedade. Quando você se cansa de uma, joga fora e compra outra. Ou vende a velha e compra uma nova.

– Vende a velha?

– Há um grande mercado para mulher inflável de segunda mão, ou recauchutada.

Eu estava entrando num mundo paralelo de cuja existência nem desconfiava. O próprio Fred me contou que havia uma comunidade de homens com mulheres infláveis, que se reunia frequentemente, inclusive para troca de casais. Só não faziam muito sexo grupal porque, com o calor da ação, havia o risco de algumas mulheres esvaziarem e murcharem, o que estragava o clima.

Nem todos compravam mulheres infláveis com a mesma intenção, ainda segundo o Fred. O Tuta, por exemplo (o nome dele, claro, não é este), especificara que queria uma inflável com a cara da sua ex-mulher e com apenas um orifício: a boca.

– Para o sexo oral, que a mulher dele se negava a fazer?

– Não, para tapar com uma rolha. Ele não toca na sua mulher inflável. Bota ela sentada ao seu lado durante as refeições, no sofá quando vê televisão, na cama... De vez em quando pergunta “Você disse alguma coisa, querida?” e depois dá uma gargalhada.

Comprei uma mulher inflável. Confesso. Pedi uma morena com a cara aproximada da Catherine Zeta-Jones, se tivessem, e não pretendo compartilhá-la com ninguém. Tenho a levado a motéis, onde o pessoal se surpreende ao me ver chegar sozinho, com uma caixa de pizza embaixo de um braço e uma bomba de encher pneu de bicicleta do outro. Mas, é claro, não sou eu que estou escrevendo isto.

Fonte: Zero Hora ( www.zerohora.com.br )

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Trégua!

Luis Fernando Verissimo

Segundo algumas lendas dos Mares do Sul, os vulcões eram aplacados com o sacrifício de virgens. Assim que um vulcão começasse a dar sinais de que iria explodir, selecionavam uma virgem e a atiravam na cratera em ebulição, como oferenda aos deuses irados. A persistência das lendas indica que a coisa funcionava. Ou que, quando não funcionava, concluíam que a moça não era virgem, e a ira dos deuses aumentava com a tentativa de enganá-los, acontecendo a erupção. Hoje em dia, nem se pensaria em algo parecido. Não, bandalho, não pela escassez de virgens, mas porque somos pessoas civilizadas que não acreditam em deuses pagãos que controlam nosso destino e podem ser influenciados com presentes. O que é uma pena: sacrificar virgens seria pelo menos uma tentativa de dialogar com as forças da natureza. Em vez de não fazer nada, que é o que nos resta diante de terremotos, tsunamis e erupções vulcânicas. Além, claro, das preces para aplacar a ira do nosso deus único.


Está faltando diálogo entre a superfície e o interior da Terra. Nós, da crosta, estamos claramente sendo atacados pelas profundezas, sem meios para revidar. Placas tectônicas se movem sub-repticiamente, derrubando nossas edificações e comprometendo nosso equilíbrio, e produzindo maremotos que completam a destruição. Quando parece que tudo serenou, explode um vulcão, a arma de fogo da natureza, de surpresa, para nos manter desorientados e enfatizar nossa impotência. Queremos uma trégua, mas não sabemos para quem apelar. Queremos negociar, mas não temos intermediários. Quem falaria por nós na língua soturna das profundezas, que só se comunica com catástrofes? Com quem acertar os termos da nossa rendição? Talvez se deva tentar as virgens de novo.

Há quem diga que o que está acontecendo é um contra-ataque. Tanto fustigamos a Terra, que ela é que estaria revidando. Sei não. Nossa invasão do subterrâneo tem sido limitada. A busca do petróleo mais intensa, as minas mais profundas, a exploração de cavernas mais extensa não pode ter significado mais do que cócegas na epiderme da Terra. A reação seria desproporcional à agressão.

Seja como for, queremos o fim das hostilidades.


Zero Hora - 22/04/2010

terça-feira, 20 de abril de 2010

Tamanho ideal

Luis Fernando Verissimo

Velha questão: que tamanho deve ter um jogador de futebol? Resposta óbvia, sujeita a desmentidos notórios: depende da posição. Jogador de defesa deve ser alto, mas um dos melhores zagueiros que já vi jogar, o Gamarra, era baixo. Goleiro quanto maior melhor, mas goleiro pequeno, segundo uma teoria não muito séria, tem a vantagem de estar mais perto do chão pra pegar a bola rasteira e ter menos peso pra carregar quando pula no angulo. Meio-campista ideal é o que tem massa física para trombar com o adversário e altura para descortinar o campo todo. Pode-se até batizá-lo de Meia Descortinador. Mas os melhores da função em ação no futebol brasileiro hoje, o Hernanes do São Paulo e o Arouca do Santos, não têm nem massa nem altura. Já o Sandro do Internacional tem a massa e a altura mas não descortina bem.

O fim dos pontas no futebol também significou o fim de uma estirpe, a dos ponteirinhos ciscadores. Aqueles baixinhos elétricos que passavam por baixo das pernas do seu marcador mas voltavam para passar de novo, fiéis ao seu destino de inconsequentes. O futebol moderno que dispensou os ponteirinhos também determinou que os outros atacantes tivessem pelo menos tamanho de atletas. Faz parte da história, ou talvez apenas do folclore, do bem sucedido técnico Rubens Minelli o portal de uma certa altura que mandava instalar quando chegava num clube. Jogador que não precisasse se abaixar para passar pelo portal não entrava no seu time. Mas de todos os atacantes de grande sucesso dos últimos anos, começando pelo Pelé - Zico, Maradona, etc. – poucos, como o Kaká e o Riquelme, teriam que se encolher para passar pelo hipotético portal do Minelli. Nem a obviedade que centroavante precisa ser alto e forte resiste a exceções como Romário e Nilmar, por exemplo.

Os dois jogadores mais em evidencia no nosso noticiário esportivo do momento, Neymar e Messi, são os mais recentes desafios a qualquer ortodoxia sobre tamanho de jogador de futebol. Neymar é um fiapo, um tísico de romance antigo, e Messi, a julgar pelo físico, encontraria sua verdadeira vocação varrendo gelo no “curling”, aquele outro esporte apaixonante. E os dois estão aí, estraçalhando defesas.

(O Globo On line, Blog do Noblat, 18/4/2010)

domingo, 18 de abril de 2010

Tempo de gaveta

Luis Fernando Verissimo

Ele se apresentou como escritor. Antes que eu pudesse perguntar o que já tinha publicado, acrescentou:

– Inédito.

Escrevera um romance, mas ainda não o publicara. Lera num artigo que os livros precisam de um “tempo de gaveta”. Antes de publicar o livro, o autor deveria colocá-lo numa gaveta e esperar. Depois de um certo tempo, poderia ler o livro com distanciamento crítico e só então decidir se ele merecia ou não ser publicado. Depois de um certo tempo, afirmava o artigo, o livro seria outro.

– E foi o que você fez?

– Foi. Escrevi um romance curto, meio autobiográfico como a maioria dos primeiros romances. Achei que ele estava bom, pronto para ser editado. Mas hesitei. Talvez fosse melhor esperar para ler o livro mais tarde, com frieza, e só então decidir editá-lo. Ou não.

– E você botou o livro numa gaveta.

– Botei.
– Por quanto tempo?

– Quase dois anos.

– Dois anos? E durante todo esse tempo não teve vontade de pelo menos espiá-lo?

– Tive, mas resisti. Finalmente, abri a gaveta e tirei o manuscrito. Já estranhei o peso. Meu pequeno romance aumentara de tamanho. Comecei a ler e não reconheci o que tinha escrito. Em vez da minha cidade e das minhas experiências como adolescente, a história se passava na Rússia czarista. Procurei em vão pelas cenas da minha iniciação sexual com a babá do vizinho e não encontrei. Mas encontrei o Napoleão Bonaparte!

– O seu livro se transformara em...

– Guerra e Paz, pois é. Ou coisa parecida. Pensei que tivesse enlouquecido. Fechei a gaveta e passei mais dois anos sem abri-la. Com medo de que aquele meu delírio fosse verdade e eu estivesse mesmo louco. Até que um dia...

– Você abriu a gaveta de novo...

– Não, a gaveta se abriu sozinha. O tamanho do manuscrito forçara a gaveta a se abrir. Meu nome continuava na primeira folha, mas o resto do manuscrito, que daria uns seis volumes, era de reminiscências de um francês... Um romance meio autobiográfico, como o meu, mas a semelhança terminava aí.

– Proust?

– Proust. Botei este manuscrito numa gaveta maior. Esperei mais um ano. De vez em quando dava uma espiada, para ver no que meu pequeno romance estava se transformando desta vez. Um dia, criei coragem, abri a gaveta e peguei a primeira folha para ler. Começava assim: “No princípio Deus criou os céus e a Terra...”

– A Bíblia!

E com minha assinatura. Fechei a gaveta imediatamente. Passei meses sem abri-la. E então, anteontem, decidi. Abri a gaveta, disposto a acabar com aquela brincadeira. Eu não era um louco. Aquilo não podia estar acontecendo. Abri a gaveta e encontrei...

– O quê?

– Meu romance. Meu pequeno romance, como eu o havia deixado tantos anos antes.

– E você vai finalmente publicá-lo?

– Não sei...

– Por quê?

– Acho que as gavetas estavam querendo me dizer alguma coisa...

Zero Hora 18 de abril de 2010

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Patrono

Luis Fernando Verissimo

Um estudo recente encomendado pelo banco BNP Paribas, francês e insuspeito, mostrou que nos últimos cinco anos a classe C brasileira cresceu e aumentou sua renda mais do que as classes A/B, enquanto que as classes D/E (não falam nas classes abaixo destas, que, no Brasil, como se sabe, chegam até as J/K) diminuíram de tamanho. Interpretações e reparos à vontade e ao gosto político de cada um, mas o inegável nos números é que houve ascensão social e está havendo distribuição de renda. Com bolsas antifome, suspensão de impostos, piques de empregos formais, pacs e repacs e trancos e barrancos, o governo está inserindo cada vez mais gente na vida econômica do país – enquanto consola os de cima com favores também inéditos para o capital financeiro. O que deve interessar a todo o mundo é que está se criando uma coisa que até agora não existia no Brasil, um grande mercado consumidor interno. E o patrono desta transformação não é Karl Marx, é Henry Ford.
Ironia. Henry Ford, em matéria de política, era um reacionário execrável. Sua companhia tornou-se um exemplo de cupidez empresarial um pouco acima do normal. Uma das histórias pouco comentadas da II Guerra Mundial é que a guerra já corria solta e o antissemita Ford continuava fazendo negócios com a Alemanha nazista. E não é preciso ir tão longe: foi notória a colaboração da Ford com a última ditadura militar na Argentina, para proteger seus interesses, e a ajuda da Ford e outras multinacionais estrangeiras à Operação Bandeirante, força auxiliar da repressão formada por empresários paulistas no Brasil dos anos cinzentos. Isso em contraste com a atividade – louvável – da Fundação Ford nos campos da educação e da cultura no continente. Mas Henry Ford ficou na história porque criou o fordismo, um método revolucionário de produção de carros em série que mudou para sempre os costumes e a paisagem da América. E porque pagava bem os funcionários da sua linha de montagem, raciocinando que de nada adiantava inundar o país de carros sem um mercado de massa para comprá-los.
Ford e o fordismo não foram os únicos responsáveis pela industrialização acelerada dos Estados Unidos a partir dos anos 20, claro, nem os empregados bem pagos da Ford foram os únicos protótipos da classe C consumidora que sustenta o capitalismo americano até hoje. Mas o fordismo teve efeitos colaterais importantes. Propiciou o aparecimento de um movimento sindical forte, e consequentes vantagens iguais para outros trabalhadores. Democratizou o acesso a bens antes exclusivos de uma minoria. E ficou como exemplo de racionalidade econômica a ser seguida. No caso do Brasil dos últimos cinco anos, um pouco tarde.

Zero Hora 15/04/2010

Teatrinho

Luis Fernando Verissimo

Mauro e Mel eram casados. Faziam teatro e, para ajudar no orçamento, se apresentavam em festas de crianças. Levavam um pequeno palco e um elenco de fantoches para manipular: Chapeuzinho Vermelho, Lobo Mau etc. Não ganhavam muito com isso, mas sempre ajudava. Convites para apresentações não faltavam. O teatrinho para crianças estava indo bem. O que não estava indo muito bem era o casamento dos dois.

Aquele dia já tinha começado mal. O Mauro amargurado, se queixando da vida e da falta de oportunidade para fazer teatro de verdade. Afinal, era um ator formado, não podia passar o resto da vida fazendo teatro de fantoches. A Mel, cansada das lamúrias do Mauro, rebatendo que os fantoches pelo menos pagavam as contas, e não deixavam de ser teatro. Os dois tinham brigado desde o café da manhã, e continuaram brigando no carro, a caminho da festa de aniversário onde se apresentariam àquela tarde. E só não continuaram brigando enquanto montavam o palco porque a plateia já começava a ocupar seus lugares, as crianças maiores no chão, as menores no colo das mães, num clima de grande expectativa.

Chapeuzinho Vermelho apresentava o espetáculo.

– Alô, amiguinhos! Meu nome é Chapeuzinho Vermelho e...

A cabeça do Lobo Mau apareceu num canto do palco.

– Chapeuzinho... Isso lá é nome?

CHAPEUZINHO (depois de um segundo de hesitação) – Ih, o Lobo Mau já quer entrar na história. Ainda não é a sua vez, Lobo Mau. Vá embora e espere a sua deixa.

LOBO MAU – Lobo Mau... Isso não é um nome, é uma sentença. Eu não sou intrinsecamente mau. Posso decidir ser mau, ou não. A existência precede a essência, segundo Sartre. É a velha questão, to be or not to be.

CHAPEUZINHO – Amiguinhos, vamos dar uma vaia no Lobo Mau para ele ir embora e esperar sua vez? Vamos lá, todo o mundo... Buuuuuu!

As crianças vaiaram o Lobo Mau, que desapareceu.

CHAPEUZINHO – Meu nome é Chapeuzinho Vermelho, e eu estou levando esses doces para a vovozinha. Será que essa floresta é perigosa? Será que eu vou encontrar um...

Apareceu o Lobo Mau.

CHAPEUZINHO – Lobo Mau!

LOBO MAU – Em pessoa. Mas você, também, está pedindo, hein beibi? Sozinha desse jeito no meio de uma floresta escura... Você não lê jornal, não?

CHAPEUZINHO – Eu...eu... Eu estou levando esses doces para a vovozinha.

LOBO MAU – E como é que essa vovozinha mora no meio da floresta, em vez de um condomínio fechado? Me dá esses doces.

CHAPEUZINHO – Não! Por que você quer os doces da vovozinha?!

LOBO MAU – Para a sobremesa, depois de comer você.

CHAPEUZINHO – Você esqueceu? Na história, você primeiro tem que ir até a casa da vovozinha, comer a vovozinha, vestir a camisola dela e me esperar deitado na cama.

LOBO MAU – Esta é uma versão condensada, sem o travestismo. Prepare-se para morrer!

CHAPEUZINHO (correndo de cena) – Não! Vou chamar o caçador. Socorro!

Sozinho no palco, o Lobo Mau dirigiu-se à plateia.

LOBO MAU – Amiguinhos, desculpem-me. Vocês não têm nada com isso. É uma crise pessoal, entendem? Eu não sou mau. Aliás, não sou nem lobo. Sou um ator. Antes disso, sou um ser humano. Perguntem à mamãe o que é isso. É uma coisa complicada, é...

Entrou em cena o caçador, carregando uma espingarda, que apontou para o Lobo Mau.

CAÇADOR – Pare!

LOBO MAU – Você interrompeu meu solilóquio, pô.

CAÇADOR – Mãos ao alto!

LOBO MAU – Está bem, atire. Atire! Vamos acabar logo com isso. Aqui está o meu peito. Mire no coração, que não tem mais serventia. Atire, Mel!

CAÇADOR (fazendo o som do disparo) – Pum!

O Lobo Mau caiu para a frente, quase despencando do palco. Silêncio na plateia. Depois começaram as vaias – “Buuuuu” – não se sabe se para o desfecho abrupto da versão abreviada, para o fim do Lobo Mau ou para a condição humana. E depois começou a chuva de brigadeiros contra o palco.

Mediterranizemo-nos

Luis Fernando Verissimo

Alex Ross escreve sobre música para a revista “The New Yorker”. Tem um livro publicado, que eu saiba: “O resto é barulho”.

Num dos capítulos do livro ele comenta a enorme influencia de Richard Wagner não só na música mas no teatro, na literatura, nas artes plásticas e na política do seu tempo, uma influencia que perdurou depois da sua morte em 1883 e invadiu o século vinte.

Wagner era o compositor preferido de Hitler e convencionou-se que na mistura de misticismo, espetaculosidade e triunfalismo teutônico das suas operas está uma das raízes do nazismo - o que não impediu que também influenciasse Theodor Herzl, fundador do sionismo, que, segundo Ross, teria tido a sua visão de um estado judeu depois de assistir “Tannhauser”.

Outro alemão influente, Friederich Nietzsche, foi um admirador fanático de Wagner (e, como ele, considerado uma das vertentes intelectuais do fascismo) mas mudou de ideia e passou a ser um dos seus maiores críticos.

Para Nietzsche, Wagner se convencera que era mais do que um compositor, era um oráculo, “o ventríloquo de Deus”, na sua frase, e era preciso libertar a estética da época daquele pesado domínio.

Nietzsche passou a pregar uma reação a Wagner, uma volta da música às suas raízes populares e à simplicidade. “Il faut méditerranizer la musique”, escreveu. Era preciso mediterranizar a música.

A reação já estava acontecendo. Principalmente entre os franceses, velhos ressentidos com a prepotência alemã. Bizet, Faure, Satie, Debussy e outros anti-Wagners “mediterranizaram” a música, cada um a seu modo. Mas fiquei pensando em como a exortação do Nietzsche ainda serve, não necessariamente na música mas em todas as ocasiões em que a vida parece ficar wagneriana demais.

Deveríamos mediterranizarmo-nos todos, o que significaria evitar dramas ruidosos, megalomanias épicas e arrebatamentos místicos e nos concentrarmos nos simples prazeres possíveis.

Não seria uma receita para a frivolidade, ou para a insensibilidade com a tragédia e a injustiça, mas uma correta avaliação de prioridades. E pode-se ser mediterrâneo em qualquer lugar da Terra.

O problema é que o exemplo maior de vida mediterrânea é a Itália da doce vida, mas que também é a insensata Itália do Berlusconi. Talvez o ideal devesse ser mediterranizarmo-nos, mas não demais.

(Blog do Noblat, O Globo on line, 10/4/2010

domingo, 11 de abril de 2010

Outro você

LUIS FERNANDO VERISSIMO

Me dizem que rola um texto na Internet com minha assinatura baixando o pau no “Big Brother Brasil”. Não fui eu que escrevi. Não poderia escrever nada sobre o “Big Brother Brasil”, a favor ou contra, porque sou um dos três ou quatro brasileiros que nunca o acompanharam. O pouco que vi do programa, de passagem, zapeando entre canais, só me deixou perplexo: o que, afinal, atraia tanto as pessoas – além do voyeurismo natural da espécie – numa jaula de gente em exibição? Falha minha, sem dúvida. Se prestasse mais atenção talvez descobrisse o valor sociológico que, como já ouvi dizerem, redime o programa e explica seu fascínio. Pode ser. Os “Big Brothers” e similares fazem sucesso no mundo todo. Provavelmente eu e os outros três ou quatro resistentes apenas não pegamos o espírito da coisa.
Também me dizem que, além de textos meus que nunca escrevi (como textos igualmente apócrifos do Jabor, da Martha Medeiros e até do Jorge Luís Borges) agora também frequento a Internet com um “tweeter”. Aviso: não tenho tuíter, não recebo tuíter, não sei o que é tuíter. E desautorizo qualquer frase de tuíter atribuída a mim a não ser que ela seja absolutamente genial. Brincadeira, mas já fui obrigado a aceitar a autoria de mais de um texto apócrifo (e agradecer o elogio) para não causar desgosto, ou até revolta. Como a daquela senhora que reagiu com indignação quando eu inventei de dizer que um texto que ela lera não era meu:

– É sim.

–Não, eu acho que...

– É sim senhor!
Concordei que era, para não apanhar. O curioso, e o assustador, é que, em textos de outros com sua assinatura e em tuiters falsos, você passa a ter uma vida paralela dentro das fronteiras infinitas da Internet. É outro você, um fantasma eletrônico com opiniões próprias, muitas vezes antagônicas, sobre o qual você não tem nenhum controle,

– Olha, adorei o que você escreveu sobre o Big Brother. É isso aí!

– Não fui eu que...

– Foi sim!

=> VERISSIMO Luis Fernando. Blog do Noblat publicado em 04/04/2010. Disponível em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2010/04/04/outro-voce-280562.asp> acessado em 11/04/2010